Nos Bastidores

Em crítica à atuação negacionista de Bolsonaro, deputado do AM diz que presidente ‘atrapalhou condução da pandemia’


Carolina Givoni – Da Revista Cenarium
Para evitar o sentimento de normatização da perda das 100 mil vidas durante a pandemia, deputados federais seguem voltam a criticar o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), após o Brasil atingir a marca de óbitos pela Covid-19.
Desde o início da pandemia, Bolsonaro minimizou diversas vezes a gravidade do assunto, além de ser basear em suposições sem comprovação médica ou da comunidade científica.
O confronto com opositores, governadores e prefeitos, foi intensificado pela determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), que concedeu força decisória de restrição nas cidades e estados sem a intervenção presidencial.
O deputado federal Marcelo Ramos (PL-AM) comentou por meio das redes sociais, que o triste marco é simbólico por direcionar o povo ao senso crítico, além de relembrar que o papel do executivo federal seria liderar com união e sensatez as decisões inerentes ao combate do novo Coronavírus.
"Tentar transferir essas responsabilidades para os governadores dos Estados é um equívoco. Nenhuma decisão judicial e nem política, nem legislativa, tirou o dever de planejamento e coordenação do Governo Federal em relação as ações de combate à Covid-19, mas sim a postura negacionista (de Bolsonaro). A postura de enfrentamento direto com os governadores pode não ser a responsável pelas 100 mil mortes, mas certamente atrapalhou o processo de condução do combate a essa pandemia nosso país", lamentou Ramos.
Assim como ele, diversos deputados lamentaram a postura presidencial
Os líderes da Oposição, André Figueiredo (PDT-CE), e da Minoria, José Guimarães (PT-CE),  lamentaram as mortes, acusaram o presidente Jair Bolsonaro de ser omisso e de minimizar a gravidade da doença, e se solidarizaram com as famílias que perderam parentes na luta contra o coronavírus.
"Bolsonaro desdenha da vida, da dor de 100 mil famílias, e do povo brasileiro. Com sua política negacionista, coloca o Brasil entre os países com mais óbitos pela Covid-19. É o caos social, humano, econômico, sanitário", criticou Figueiredo.
O líder da Oposição disse ainda que Bolsonaro será condenado pela justiça brasileira e por órgãos internacionais. "Bolsonaro vai terminar sua vida política na cadeia. É vergonhoso ter um presidente que não se solidarize com as mais de 100 mil famílias enlutadas e não tenha responsabilidade de fazer com que o povo não sofresse tanto", acrescentou.
Segundo o líder da Minoria, a América Latina passou a liderar o número de casos da doença no mundo "puxada pelo Brasil".
"Contando com o Caribe, a região já responde por 4,34 milhões de infectados, à frente da América do Norte, que registra 4,23 milhões de casos", comparou Guimarães. "E não se ouviu uma palavra sequer, vinda de Bolsonaro, em solidariedade às famílias. 100 mil vítimas desta omissão governamental!", disse.

Pronunciamentos de Bolsonaro

Em um pronunciamento em 24 de março deste ano, o presidente afirmou que não seria afetado pelo vírus. Na época, eram registrados 2.201 casos oficiais e 46 mortes.
"Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar. Nada sentiria. Seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão", disse à época.
Em 28 de abril, durante uma aparição em frente ao Palácio do Planalto, o presidente interrompeu um jornalista que perguntava sobre o número de mortos por conta do novo coronavírus. Já haviam sido contabilizados 71.886 casos oficiais e 5.017 mortes e o país havia registrado, apenas em um dia, dois mil casos e 113 vítimas.
"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre", disse.
Já em agosto, durante uma transmissão ao vivo nas suas redes sociais, Bolsonaro fez diversas piadas e afirmou: "A gente lamenta todas as mortes, vamos chegar a 100 mil, mas vamos tocar a vida e se safar desse problema", finaliza.

Inumeráveis

O Brasil registrou neste sábado, 8, o número de 100.240 mortes decorrentes da pandemia do novo Coronavírus, doença que causa a Covid-19. No país, são 2.988.796 de infectados, segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa (O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo, G1 e Extra) a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde.
Famílias enlutadas que perderam seus entes queridos relembram, em palavras emocionadas, histórias de seus familiares, como a de Angela Araújo, cuja mãe Marlene Sales Araújo, de 77 anos, morreu em junho deste ano, após complicações causadas pela pandemia.
"Foram 77 anos de bênçãos. Na bondade dos seus gestos, transparecia a paz de seu coração. Viveu para servir as pessoas, não foi à toa que se formou como Técnica de Enfermagem. Mãe, esposa, avó, profissional de saúde, mulher guerreira, vencedora, e que conseguiu plantar, no coração das pessoas que tiveram o privilégio de conviver com ela, o significado de ajudar e cuidar de pessoas. Ela plantou o bem, construiu uma história e deixou um legado de bondade", disse Ângela, em depoimento colhido pelo site Inumeráveis.

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