Nos Bastidores

Opositor drástico do governador Wilson Lima, deputado Wilker Barreto ridicularizou PF e MPF por José Melo, preso por corrupção

Wilker Barreto (à esquerda) e o ex-governador José Melo (no centro) em reunião no ano de 2015: amizade impediu o parlamentar de falar e agir (CMM)

Paula Litaiff – Da Revista Cenarium
Compondo uma oposição intransigente na Assembleia Legislativa do Estado (ALE/AM) contra o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), o deputado Wilker Barreto (Podemos) já chegou a fazer piada com provas levantadas por agentes da Polícia Federal (PF) e por procuradores eleitorais do Ministério Público Federal (MPF) no processo que cassou em 2017, o ex-governador e aliado, José Melo.
Barreto era presidente da Câmara Municipal de Manaus (CMM) e foi candidato na coligação de Melo nas Eleições de 2014, saindo derrotado, quando em 8 de março de 2015, o programa Fantástico da Rede Globo denunciou um esquema de cooptação de eleitores na campanha do ex-governador.
A matéria se baseou em investigações da PF e do MPF, as quais apontaram a utilização de recibos de doações, assinados pelo irmão do ex-governador, Evandro Melo, que era secretário de Estado.
Na íntegra, a reportagem do Fantástico:


No dia seguinte, Wilker Barreto usou a tribuna da Câmara Municipal de Manaus para tentar desqualificar a reportagem da Globo e o trabalho dos agentes federais, desdenhando, inclusive, dos documentos.
"Eu não creio que um recibo de padaria, feito a mão, coisa frágil, possa ser usada de forma criminal a nível eleitoral, já pensou se essa moda pega?", questionou ele, segundo o texto no site da CMM. A imprensa que acompanhou Wilker nesse dia, observou ainda que ele ria e acenava aos colegas durante o discurso, ridicularizando a apuração da PF.

Ele também tentou confundir o entendimento dos telespectadores que o acompanhavam pela TV Câmara na ocasião, levando a “tese” de que se fosse associar algum benefício dado por José Melo em ano eleitoral seria o mesmo que dizer que a Bolsa Família (um programa social criado em 2003) influenciou na reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2014. "Ninguém consegue provar, mas é uma questão subjetiva a de que o Bolsa Família tenha influenciado na reeleição da presidente Dilma", tentando justificar.

'Caixa 2'

O inquérito da Polícia Federal que levou à confirmação da cassação de José Melo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em maio de 2017, mostrou que o ex-governador usou dinheiro público para conseguir se reeleger.
Pelas investigações, ele contratou os serviços da empresária Nair Queiroz Blair, presidente da Agência Nacional de Segurança e Defesa (ANSD), pelo valor de R$ 1 milhão, referente a um projeto da Copa do Mundo de 2014, cuja execução não foi comprovada..


Blair foi presa por agentes federais no ápice da campanha de 2014, durante uma reunião a favor da candidatura de José Melo, onde estavam pastores evangélicos e outros líderes comunitários.
Com ela, foram apreendidos R$ 11,7 mil e documentos que incluíam notas ficas, listas de eleitores e recibos com assinaturas da empresária e do irmão do governador. A denúncia da reunião foi levada à PF pela coligação do candidato opositor a Melo na época, hoje, senador Eduardo Braga (MDB).

'Perseguição política'

Apesar da vasta documentação, depoimentos de eleitores e explicações de membros do Ministério Público sobre a denúncia de compra de votos de José Melo, o deputado Wilker Barreto emitiu uma Carta de Apoio ao ex-governador, seis dias após defendê-lo na tribuna da Câmara Municipal de Manaus.
No documento, o parlamentar afirmou que "forças políticas literalmente derrotadas por uma avalanche de votos nas eleições de 2014", tentavam “de forma desesperadora, macular a legitimidade da soberania popular”. Barreto disse, também, que era "absolutamente inaceitável" a interferência no resultado do pleito.
Há cinco anos, Wilker Barreto defendia o ex-governador José Melo

Omisso na corrupção

A parcialidade de Wilker Barreto na gestão de José Melo não ocorreu somente no processo eleitoral que levou a cassação do ex-governador.
Não há discursos no site da CMM, de quando ele era vereador de Manaus, questionando o governo do Estado sobre as decisões administrativas austeras contra a Secretaria de Estado de Saúde (Susam).
Entre as medidas criticadas nacionalmente, José Melo anunciou o fechamento de parte dos Serviços de Pronto Atendimento (SPAs),  Centros de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (Caics) e Centros de Atenção Integral à Melhor Idade (Caimis) em toda a cidade de Manaus, argumentando falta de dinheiro, além de deixar atrasar o salário dos funcionários da Saúde por meses.
José Melo, o irmão dele, Evandro Melo, e dezenas de agentes do governo e empresários foram presos pela Polícia Federal em 2017, na operação conhecida como "Maus Caminhos", que desarticulou um esquema de desvios milionários da Susam. Não se tem informações de que Wilker Barreto tenha se pronunciado, até hoje, contra o ex-governador.

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